domingo, 14 de janeiro de 2007

FAVORITOS VII

O TINTEIRO
Nobre tinteiro sagrado do poeta
de cujas entranhas nasce um mundo,
quando à ti vem uma idéia,
que com certa graça nova te assedia.
Tinta, aonde encontravas riquezas
tão fabulosas? Quando cada traço teu flui no papel
um novo diamante se reúne
ao cabedal da fantasia.
Quem te ensinou as palavras
que lanças ao mundo e que nos enchem de entusiasmo?
Os filhos de nossos filhos as lerão
com o mesmo ardor e emoção.
Estas palavras que ressoam em nosso ouvido
como escutadas pela vez primeira, aonde as achaste?
Não são, no entanto, de todo estranhas -
nosso coração em uma vida anterior já as sabia.
A pena que molhas lembra um ponteiro
que no relógio da alma se move.
Os minutos do afeto conta e limita,
as horas da alma conta e muda.
Nobre tinteiro sagrado do poeta
de cuja tinta nasce um mundo – à minha mente surge agora um pensamento,
quanto mundo dentro de ti se perderá
quando uma noite, o fundo sono caia sobre o poeta?
Ali ficarão para sempre as palavras;
Alguma mão estranha poderia acha-las e brindar-nos com elas?
Não, tu, fiel ao poeta lhas negaria.
(Cavafis).

FAVORITOS VI

ESQUECIMENTO
Encerradas em uma estufa
cercadas pelos vidros, as flores esquecem
como é a luz do sol
e como sopra ao passar, a úmida brisa.
(Cavafis).

FAVORITOS V

DESDE AS NOVE
Meia noite e meia. Depressa passou o tempo
desde as nove quando acendi a luz
e sentei-me aqui. Estava sentado imóvel
e sem falar. Com quem iria conversar
eu sozinho nesta casa.
A imagem do meu corpo jovem,
desde as nove quando acendi a luz,
chegou e me encontrou, e lembrou-me
de pequenas alcovas perfumadas
e o prazer já passado – que ousado prazer!
E trouxe outra vez diante meus olhos
ruas que agora já não reconheço,
lugares cheios de vida que desapareceram
e teatros e bares que uma vez existiram.
A imagem do meu corpo jovem
veio e trouxe-me a tristeza;
lutos de família, despedidas;
saudades dos meus, saudades
tão pouco sentidas dos mortos.
Meia noite e meia. Como passou o tempo.
Meia noite e meia. Como passaram os anos.
(Cavafis).

FAVORITOS IV

A CIDADE
Disseste: “Irei à outra terra, irei à outro mar,
outra cidade há de haver melhor que esta.
Cada esforço meu é uma condenação já ditada;
e meu coração está – como um morto – enterrado.
Até quando ficará minh’alma nesta melancolia?
Para onde quer que olhe,
vejo aqui as negras ruínas de minha vida,
onde passei tantos anos que arruinei e perdi.”
Não haverá novas terras, não verás outros mares.
A Cidade te seguirá. Vagarás pelas mesmas
ruas. E nos mesmos bairros envelhecerás;
E entre as mesmas paredes irás encanecendo.
Sempre chegarás a esta Cidade. Para outra terra – não esperes –
não tens barco, não há caminho.
Como arruinaste aqui a tua vida,
neste pequeno recanto, assim
em toda a Terra a puseste a perder.
(Cavafis).

FAVORITOS III

Não venhas sentar-te à minha frente, nem ao meu lado;
não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado
quero só dormir.
Dormir até acordado, sonhando
ou até sem sonhar,
mas envolto num vago abandono brando
a não ter que pensar.
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era minha fé,
escrevi numa pagina em branco, “Fim”.
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
os tronos prometidos não tiveram carpinteiro,
acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
mas nunca encontrei parceiro.
Por isso, se vieres, não te sentes ao meu lado, nem fales.
Só quero dormir, uma morte que seja
uma coisa que não me rale nem com que tu rales -
que ninguém deseja nem não deseja.
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
as esperanças e ambições que tive,
e hoje sou só um suicídio tardo,
um desejo de dormir que ainda vive.
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
como um barco abandonado,
que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
sem se lhe saber o passado.
E o comandante do navio que segue deveras
entreve na distancia do mar
o fim do ultimo representante das galeras,
que não sabia nadar. –
(Fernando Pessoa.).

FAVORITOS II

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim, o resto parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
e não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
tão triste que me pareceu que me seria impossível
viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incomoda.
Deve haver ilhas lá pro sul das coisas
onde sofrer seja uma coisa mais suave,
onde viver custe menos ao pensamento,
e onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
e acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
nem no dia do mês ou da semana que é hoje.
Abrigo no peito, como a um inimigo a quem temo ofender,
um coração exageradamente espontâneo
que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
canções tristes, como as ruas estreitas quando chove. -
(Álvaro de Campos?).

FAVORITO I

Daí-me rosas e lírios,
daí-me flores, muitas flores
quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
e a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
estando eu a chorar aquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
chama pela minha atenção com a s mãos no seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
caída no chão...
Qual é o sentido da vida? -
(Álvaro de Campos?).

EXPLICANDO (MAIS UMA VEZ)

Já disse, mas nunca é demais repetir, que eu (e muita gente melhor do que eu) acho a palavra a invenção mais genial feita pelo homem (pelo ser humano, eu sei, feministas de plantão!). Não adianta virem me dizer que uma imagem vale mil palavras porque logo peço humildemente: "Diz isso sem palavras".Aproveito o ensejo (!) pra explicar aos mais atrasadinhos que, ao contrario do que pensam grandes eruditos, a palavra não é gerada nem foi criada no córtice cerebral, que o vulgo chama de massa cinzenta. O córtice cerebral é que foi criado pela palavra. A ânsia do ser humano (eu sei, machista de plantão, o homem) se exprimir, de, por exemplo, transmitir a outro ser humano que tinha visto um negócio explodindo em fogo vindo do céu: "Rá Rá iii!", criou no breve período de um milhão de anos, a palavra raio.
Daí ao cognitivo da anomia foi um passo (não adianta o leitor tentar entender o que pretendo dizer com isso estou só imitando os eruditos).Por esse meu culto da palavra é que aproveito qualquer oportunidade pra sacanear qualquer pretensão de não só pretender dominar sua substância e uso, mas sequer supor que isso pode ser feito. E, maldição!, Semanticamente está provado que só podemos proibir o que podemos nomear, denominar. Enquanto não havia a palavra mãe, pai, filho, filha, não havia incesto. - (Millôr Fernades.).
PS ATENCIOSO:- O Millôr não faz a minima idéia que um dos seus textos está aqui. Mas como gostei e achei pertinente, postei aqui. Não acredito nessa hipótese, mas se ele quiser pode me processar. Se tiver ganho de causa vai demorar muito pra receber.

ÀQUELES QUE SE ARRISCAM POR AQUI:

Gente, algumas pessoas tem comentado sobre o blog comigo, e confesso que isso me envaidece, sem dúvidas. Mas gostaria que deixassem as suas impressões por escrito, se não for muito atrevimento de minha parte. Não sou avesso as críticas, antes pelo contrário. Elas são bem vindas quando tem por objetivo alertar para falhas de um trabalho que nunca está fechado. Mas acima de tudo gostaria que postassem sugestões para uma melhoria do blog. A dinamicidade é mais que necessária hoje em dia, e é isso que eu gostaria de buscar com a colaboração de vocês. É um espaço aberto para todos, onde eu me ponho apenas como um portador daquilo que escrevo, e do que outros escrevem e eu gosto, e considero egoismo não divulgar. Portanto se tiverem vontade, postem críticas, sugestões e até ofensas, desde que sejam lights, rs. Conto com o carinho que sempre tive de todos que entraram aqui. Obrigado, Dário B., um seu criado.

sábado, 13 de janeiro de 2007

ESSE CARA SABIA DAS COISAS...

Calcula sem cessar quantos são os médicos que morreram depois de haver franzido o cenho tantas vezes à cabeceira de seus doentes; quantos astrólogos que haviam predito com ênfase a morte de outros indivíduos; quantos filósofos que haviam apregoado uma infinidade de sistemas acerca da morte e da imortalidade; quantos guerreiros celebres que haviam imolado milhares de inimigos; quantos tiranos que haviam abusado com terrível ferocidade do direito de vida e morte sobre seus vassalos, como se eles próprios fossem imortais; enfim, cidades inteiras como Pompéia e muitas outras morreram por assim dizer. Lança logo um olhar sobre todos que tu mesmo conheces-te e verás que um já está no túmulo, outro foi enterrado por um terceiro, e este por sua vez por um outro, e tudo isto sucessivamente num espaço de tempo relativamente curto. Numa palavra, não percas nunca de vista a fragilidade e a inconstância das coisas humanas. O homem ontem era um simples gérmen; amanhã será um cadáver ou menos ainda, cinzas. Passemos pois este curto instante de vida conforme nossa natureza; submetamo-nos voluntariamente a nossa dissolução, como a fruta madura que, ao cair, diria-se que bendiz a terra que a produziu e dá graças à arvore que a sustentou. – (Meditações de Marco Aurélio.).
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