segunda-feira, 18 de junho de 2007

VONTADES.

Se está tudo pesado, medido e dividido, quero a minha parte do inferno. Embriagar-me com o fel que me foi reservado. Mas não essa amargura mesquinha que é comum a todos. Quero a totalidade da dor do espírito. Trevas totais onde nem uma nesga de luz seja esperança. Qualquer som banido a uma distancia infinita e a paz da surdez total seja um bloco a me pressionar os miolos, longa e ininterruptamente. A lepra a me comer os dedos pra não tatear em busca de um inferno mais brando. Quero os crimes que deixei de cometer por covardia. A atrocidade daqueles amores abortados por medo. A vileza e o escárnio dos outros, descartados por não servirem mais ao egoísmo da vaidade. Estar acorrentado a pedra, com o menosprezo que tive pelo amor do outro a me bicar eternamente a mente insana. A futilidade dos desejos vãos nunca saciados na busca daquilo que se deixou pra trás. A maldade concreta dos meus atos contradizendo a mansidão do meu discurso, e possesso rir disso, atrás das mil máscaras que escolho. E assim torpe, pensar enganar a mim, e escarnecer dessa consciência inútil que me julga, até torná-la tão mínima que seja indiferente existir ou não. Não a morte, que com sua mão de ausência tudo apaga, mas quero a dor infinita e insuportável de não saber mais o que sou nem o que faço, e que virá por fim como uma paz a me redimir pelo quis e não fiz. Quero me mexer, ir e vir, e estar morto como você. Assim vou e vais me entender. - (Dário B.).

sexta-feira, 23 de março de 2007

MIAU.

Andas nua pela casa,
não para me provocar,
mas pra te fundires com o ar que é teu elemento.
Por ele me chegas,
felina criatura de suaves garras,
e insuflas desejos indiziveis na linguagem dos Homens.
Teus passos lentos, lentos, lentos...
os movimentos leves, leves, leves...
dão o compasso do infinito prazer que nos tornou um.
Aspiro-te e sou. - (Dário B.).

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

REFÚGIO

Acode-me, Arte da Poesia,
tu que sabes todos os remédios.
Por que dela o riso, já não mais cai sobre mim,
a suavizar as marcas da face,
e as cicatrizes do corpo?
Por que a prata do seu olhar,
não mais fulge cores no meu ver?
Que é da nuvem de cabelos,
a agasalhar meu frio infinito?
Onde tocam as suaves mãos,
mães de magias sem fim?
Como de novo acompanhar,
a febril dança dos seus pés?
Quando outra vez repousar,
no indizível leito do seu corpo?
Faz chegar os teus remédios, Arte da Poesia,
ainda que só por um instante.
Ameniza a dor deste punhal,
com a Fantasia e a Palavra. - (Dário B.).

FAVORITOS XIII

Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere... Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde. Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha. Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos. Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias. Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais... os médicos deveriam proibir – como doem! Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde. E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda. Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna. Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca. Conversa é melhor do que piada. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida. Sonhar é melhor do que nada. (Luís Fernando Veríssimo)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

NÃO SOU INGRATO...

... e nem poderia ser. Vocês já devem ter percebido que meu blog é um pequeno mosaico formado por peças não só minhas. Os dois poemas postados abaixo, de autoria da Clara, significam pra mim mais do que só dois poemas. Leio deitado numa banheira, imerso em trevas totais, comendo papos-de-anjo. Tem algumas pessoas que surgem em nossa vida, e sem nos dar conta instalam-se como um posseiro em nosso coração. Foi assim com a Clara, e ainda bem pra mim. Obrigado por existir, por estar sempre presente.
Agora mesmo trago, a vontade de não censura,
livre como só os pássaros,
em busca de um coração fiel.
O vento leva consigo as sementes,
plantamos em solo fértil o que um dia será...
será com sol ou chuva, tremulo, perto ou distante,
o que importa é o agora, que é e que ainda virá

atropelos, é o sentimento das horas
e nada mais meu bem, além de bem querer,
como um raio de amor e luz,
como descarga elétrica a nos envolver,
ar em torno de vácuo, unindo os corações.

Clara Schumann ( Milene)
Te chamo, marco meus passos, acolho o mundo
única ando em palavras e sons
se vejo cinza tudo é cinza,
se vejo rosa, tudo é rosa
acredito e te ganho,
sem crer, tudo já perdi sem querer.
Nos olhos está o feio e o belo,
o doce e o amargo que queima
posso chorar com a criança que chora
ou rir dela e de mim.
Na vida que sinto
imagino, vejo e sou
escolho o que sou e vejo
a vida ou a morte,
os sonhos que quero real
o passado e o futuro
olho nos olhos e faço.

Clara Schumann (Milene)

POETAS SÃO GENTE.

Eu vivo pra poesia mas poetas não vivem pra mim. Espero que eles me alimentem como a um coelho faminto. Eles não sabem disso. É melhor mesmo que não percebam o quanto são necessários. De outro modo seríamos ultrapassados por eles e eles não saberiam quando parar. Um excesso de poetas não seria uma boa idéia pro nosso mundo. Nosso mundo necessita apenas de um certo número. Embora isso ainda não tenha sido atingido é importante que a poesia seja controlada.
Eu sei. Tenho observado poetas vagabundeando por aí, esperando o momento de atacar. É pior do que haker atacando. Uma visão horrível. A pessoa atacada correrá pela rua gritando. Pode até amaldiçoar o sistema, e fugir de casa levando sua filha com ele. Poemas têm um jeito de infeccionar os pobres idiotas que os escrevem. Poetas ficam em silêncio durante conversações, esperando uma brecha. Subitamente, sem aviso, um poeta falará uma sentença que acabou de pensar, e aqueles em volta gritarão como que atingidos por um curto-circuito.
Você gostaria que isso acontecesse freqüentemente? Levaria meses pra se voltar a qualquer aparência de normalidade. Isso pode ser uma boa de vez em quando, como mudança. Mas pára um momento e procura imaginar o pessoal do governo de Sua Majestade todos os dias fazer suas transmissões, como faz, mas cada uma ser um poderoso poeta. A confusão seria indescritível. A nação ia parar nos trilhos e colher flores pros vizinhos. Carros iriam se abalroar no tráfego pros motoristas saltarem e apertarem as mãos. Greves seriam desnecessárias pois ninguém trabalharia. A vida seria boa demais pra se perder. Cada dia seria vivido sem plano e cada momento saboreado como vinho novo. Cada pôr-do-sol seria uma revelação e uma promessa pra amanhã.
Todo mundo faria amor. Mesmo os doentes. Melhor seria os poetas não usarem palavras. Melhor que nascessem mudos. Melhor que cortassem as línguas, se falassem. E melhor ainda, se pensassem, ficassem em silêncio. Deus nos proteja de suas invocações ferozes, pelo menos até termos tempo de praticar exercícios de poetas mortos, pra estarmos em forma a fim de tentar hoje outra vez. Poetas não percebem. Enquanto vivem são ervas daninhas. Quando morrem são fertilizantes.
PS - Obrigado por mais este, Millôr, põe na conta !

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

ÍTACA.

UMA DAS COISAS MAIS LINDAS JÁ ESCRITAS SOBRE A VIDA:


Quando fizeres tua viagem à Ítaca,
pede que o caminho seja longo,
cheio de aventuras, cheio de experiências.
Não tema aos lestrigões nem aos cíclopes,
nem ao colérico Posseidón,
tais seres jamais acharás no teu caminho,
se teu pensamento é elevado, se é seleta
a emoção que toca teu espírito e teu corpo.
Nem aos lestrigões nem aos cíclopes
nem ao selvagem Posseidón encontrarás,
se não os levas dentro da tua alma,
se não os ergue tua alma diante de ti.

Pede que o caminho seja longo.
Que sejam muitas as manhãs de verão
em que chegues - com que prazer e alegria! -
a portos antes nunca vistos.
Detenha-se nos empórios de Fenícia
e faz belas compras de mercadorias,
nácar e coral, ambar e ébano,
e toda sorte de perfumes voluptuosos,
compra o mais que puderes desses perfumes.
Vá a muitas cidades egípcias,
a aprender, a aprender com seus sábios.

Tem sempre Ítaca em teu pensamento.
Tua chegada ali é teu destino.
Mas não apresse nunca a viagem.
Melhor que dure muitos anos
e atracar velho já, na ilha,
enriquecido de quanto ganhaste no caminho
sem esperar que Ítaca te enriqueça.

Ítaca te deu tão formosa viagem.
Sem ela, não haverias iniciado o caminho.
Mas já não tem mais nada a dar-te.

Ainda que a aches pobre, Ítaca nunca te enganou.
Assim, sábio como te haverás feito, com tanta experiência,
entenderás já o que significam as Ítacas. - (Constandinos Petros Fotiadis Cavafis.).


PS - A tradução foi (mal) feita por este blogueiro, deve haver outras mais fiéis já publicadas. Mas é assim que eu gosto de imaginar a minha viagem.

domingo, 21 de janeiro de 2007

O QUE É O POETA?

Não importa o nome, talvez hermes, mas era um belo cão de caça. Seu dono porem, não é um caçador, é apenas um poeta. E isso fica claro para hermes um certo dia, de modo dramático. Satisfazia-se até então nos passeios diários, com a corrida tão ruidosa, quanto inútil atrás de lebres e patos. Não conhecia outra coisa. Naquele dia porém, um homem de aparência rude e vigorosa, de pé na outra margem do rio, enviou um relâmpago de uma vara tonitroante, e um pato caiu pesadamente nas águas, logo apanhado pelo solitário caçador. O tiro foi um choque tremendo para hermes, uma espécie de estalo canino. Nunca sonhara com semelhantes possibilidades. Seu amor – o poeta – não pode deixar de sentir um complexo de inferioridade. Na volta para casa, hermes parece repreende-lo, chegando até a bocejar de quando em vez. Fato que enche o poeta de ira amarga. O bocejo diz distintamente: “Belo amo este! Que tipo de dono! Senhor vagabundo!”. Pela justiça das coisas o cão deveria pertencer ao caçador ativo, e não ao dono contemplativo que vive no mundo da imaginação. Este é um dono falso, imposto, que não faz jus aos instintos saudáveis de hermes, e não sabe corresponder-lhe à altura. Não é sem razão que o cão se julga vitima de uma fraude. Seu dono é um charlatão, um ser que representa o que não é. Um “senhor vagabundo” que apenas “passeia” pela vida, mas que não “caça”, que não entra em contato substancial e decidido com a realidade. O poeta vive como que com a mão no gatilho, sem nunca atirar. Mas é seu o reino infinito das possibilidades e da imaginação, ele vive todos os papeis sem optar por nenhum; A opção seria o tiro, o compromisso com a realidade que exclui o pairar na esfera das possibilidades. Seria a identificação definitiva. Mas prefere ser um deus mítico despedaçado que surge ressurecto da tumba. Essa queda, confinamento e morte provisória é seu desenvolvimento espiritual. Essa sua multiplicidade de almas, longe de simbolizar apenas o artista, define a condição fundamental do ser humano, a natureza e o espírito. Entre o animal e o anjo situa-se o poeta. Daí o seu dom de não aderir a vida imediata, de poder afastar-se dela com a leveza da imaginação e do espírito. A catexia é a sua arma. É o champanha composto de vinhos vários, espuma sem substancia sólida, algo das caçadas infrutíferas de hermes. É o alcoviteiro que estabelece comércio entre o espírito e a vida, o saber e a beleza, as alturas e as profundezas, entre Apolo e Dionísio. Deus erótico e fálico, enfim, que não ama a separação e exalta a união entre os seres. Mediador entre o ser e a aparência, a idéia e o esplendor, sensível intercessor alado entre a vida e o espírito. O cão hermes sempre atravessará o seu caminho. O poeta permanece com o dedo no gatilho. Prossegue, sem nunca partir, pairando no reino das possibilidades, mera possibilidade das possibilidades. Relâmpago tonitroante no vôo imaginário do leitor, mercê seu selo hermético. - (Dário B.).
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