quarta-feira, 12 de setembro de 2007

TROCA.

Repete de novo meu nome, com a chama que tens na garganta,
e nesse caos de formas, cores, sensações e possibilidades,
dá-me de novo os beijos que colocavam estrelas no céu da minha boca.
Traz a palma que dá sombra ao nosso encontro.
Mostra-me os olhos da cor da madeira adulta,
as mãos tão sem anéis que semeiam magias plenas pelo ar.
Dá-me teu ventre por leito eterno num momento rubro de torpor.
E eu te dou o rio que corre pra ti, e arrasta espinho e pedra e dor. -
(Dário B.).

SOBE?

SOBE? Eleva a dor sempre. Este edifício não tem último andar! – (Dário B.).

VIVER.

Já estar aqui quando o Tempo não havia, e ser o homem que matou a morte. Não precisar nunca sacudir os ossos e o ócio. Nem carregar nas costas o peso de não saber ao menos 3 mil volumes e ter a tranqüilidade do livro ainda na barriga da árvore. Ignorar o canto do galo renitente que insiste em viver em meio aos prédios. Devorar a fome para torná-la inútil. Esquecer que só há uma jogada, contra os naipes marcados da morte. Acordar sempre de madrugada e chegar atrasado para tudo. Habitar a cidade dos ventos, ponto sem a essência da dor. O calmo mundo de antes, sem volta nem ida, com apenas uma porta de saída. Viver sem o medo de ter um medo maior pré-original. Clandestino, secreto, espontâneo, ter o poder de um pequeno deus. Viver enfim. – (Dário B.).

POETA.

Poeta, demônio de chifres de luz e cascos de vento. Abre no meio da rua suas asas, e entre o céu e o inferno, é eterno. Mede seu tempo no relógio dentro do peito, coração sem ponteiros, a medir a falida subtração da vida. Caminha os caminhos do próprio corpo que é medida do que está sempre adiante, perdido em terra distante. Atravessa a vida de sinais fechados, e traz na boca o sangue morno de violar corações e cadeados. Buscador eterno dos sonhos, se não é completo é feliz, não sendo mil folhas, é raiz. Traz musa, segredo, alvo e punhais, submisso a mão implícita das palavras ancestrais. Por desconhecer a vingança, da-se por herança, apenas a vasta espera da esperança. – (Dário B.).

terça-feira, 10 de julho de 2007

AZUL.

Acho chato usar lugar-comum, dizer que vida é feita de encontros e desencontros. Prefiro os reencontros, como aconteceu entre eu e a Genny depois de alguns outonos. Claro que eu lucrei muito mais com isso, ela me deixou postar dois poemas (só dois), mas a vontade é encher o blog com tudo de lindo que ela escreve. Obrigado Genny, não some de novo, tá?

O AMOR.

Do amor, só se tem dizeres:
Amor, vigor, tremor...
encanto, deslumbramento posto
entre o muro e o abismo.

Do amor, só se tem temores:
Amar, sofrer, ferir...
encontro, desencontro breve
que paira na finita razão do tempo.

Do amor, sejamos sinceros!
esperamos a redenção,
lembrança de um pecado original
que ainda não superamos.

Do amor, desejamos:
a flor e a náusea,
porque quase nada
entendemos dele.







Genny Xavier
Itabuna-Bahia

A METALINGUAGEM DA REBELDIA.

“ (...) Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero
há calma e frescura na superfície intata. (...)”
(Carlos Drummond de Andrade)

O poema não é a claridade
a reverência
o sopro
a clarividência.
Muito menos
o amanhecer apressado
o gosto da pasta de dentes
o namoro enviesado
o livro de ponto
o incidente
a casualidade
o acidente no trânsito
o ônibus lotado
o sabor eterno - salgado e doce:
almoço e sobremesa.
Ainda não é
pura e simples
a expressão militante
todos os chavões do engajamento
o estereótipo da luta
o vampirismo rubro
dos que ainda bebem o sangue dos revolucionários
a mentira...
O poema também não é a estética
o formalismo
ou a escola
- estilo de época -
Tantas falácias!
Tantas minúcias!
E apologias de belo
de formas
ou perfeição.

Por que enquadrar o poema?
O poema, coitadinho!
Vai servindo de muleta
de artifício
de instrumento
nas mãos dos que não sabem falar.
Diz um verso o político:
arremata o verso pensando na glória
inaugura um ponto no coração do povo
- Demônio pregando Evangelho! -
E não respeita o poeta
que se mergulhou até os quintos dos infernos
para arregaçar a poesia.
Diz um verso aqueles homens pomposos:
empresários e patrões, mestres e phds.
Estão crentes que detém as palavras
e se fazem senhores da sabedoria
- Ah, grandiosa vaidade!
Medonha megalomania! -
Nesse instante, o poema é armadilha
e o poeta vira Santos Dummont
- o inventor ludibriado -

O que seria das academias
se o poema fizesse greve
e empenhasse a bandeira
contra o utilitarismo do verso?
Não teríamos o sonho.
Não teríamos o grito.
Não teríamos a utopia...
Até a música se tornaria tímida.
Até o samba entristeceria.
E o carnaval nem chegaria à quarta-feira-de-cinzas.
Certamente
os homens simples chorariam
os homens-máquinas tentariam um golpe
os homens-cérebros sentiriam alívio
e os governantes tentariam conchavos
mandariam representantes
mediadores
diplomatas...
Talvez, até
Os Estados Unidos
declarariam guerra
e apontariam o risco de uma Terceira Guerra Mundial.
E seria tanto besteirol
tanto melodrama
que, entediado, o poeta dormiria
e, junto com ele, a poesia.

Ainda ontem
levaram o poema ao médico.
O poema estava surdo
estava mudo
estava tonto...
Nenhuma homeopatia preveniu
nenhuma alopatia deu jeito.
E o poema ficou guardado no livro
aposentado
inútil...
apenas olhava os homens
por alguma fresta
entre páginas amarelas que a traça comia.

Encarcerado, o poema fede
mofo!
Sobras de purezas apodrecidas.
Restos de sonhos putrefatos.
Lixo orgânico de civilização morta!
O homem é o poema
mas, cadê o homem que o filósofo ainda procura?
Cadê a poesia do Cântico dos Cânticos ?
Pasárgada?
O poeta que manda o homem guardar rebanhos?
A explosão da Bomba Atômica no coração da gente?
O poema é o fardo do mundo:
todas as bocas
todas as perplexidades
todo susto
e as trepadas 100%.
O poema é o fardo do mundo:
asas que voam noturnas
testemunho ocular dos crimes
e dos amores - eternos (?) ou de ocasião -
O poema é o fardo do mundo:
sombra que paira
poeira nos olhos dos menos avisados...
a rasteira
a canseira
a bofetada
o tédio
o ócio
o bicho.

Nasceram flores naquele teto de poeta.
Que flores? Que poesia?
Será o teto a lápide?
E as flores o epitáfio?
Por que passam, medonhas, as imagens
pela mente do poeta?
As palavras não traduzem exatamente
o tamanho da estranha força
dos sentimentos sobre as coisas
das coisas sob as estrelas.
Mas nem isso retrocede a mágoa
da desvalia do verso sob o cartão de crédito...
E vai se acovardando a poesia
entre os dedos trêmulos do poeta
virando metalinguagem
de um fazer solitário
sofisma quase parnasiano
- a poesia pela poesia -
Porque não tem quem mais ame a poesia
do que o poeta.
Lasciva é a dor!
E o pranto e o vento...
E a poesia, atordoada, enfurece.
Cresce as unhas e os dentes
soltando fogo pela boca do poeta.
Insano furor!
Atroz magia!
E o verso vai guardando os pedaços
da sua destruição
no coração do leitor
que se inquieta
e nunca mais esquece
os olhos da poesia...
A sua voz que fala
tinindo um som medonho dentro da cabeça.
A poesia é docemente monstruosa para quem ler.

Tem dias que as coisas
pairam cínicas
até sobre os risos infantis
das crianças no parque.
Estão ali toda a matéria do verso
pelas mãos dos meninos sujos
que mendigam algodão-doce
roda gigante
e pipoca.
Os meninos são o verso
que emporcalham as caras pintadas
das madames que passeiam com seus filhinhos...
Tem dias que as coisas
pairam cínicas pelo mundo
e o drama vira humor;
o pranto, caricatura;
o susto, ironia...
Matéria explícita do verso
correndo pelas veias
e pelos esgotos...
Veias abertas.
Fétidos esgotos!

Que lirismo fala a poesia?
O amor que palpita?
O amor que escorrega?
O corpo que incendeia?
A fumaça que se esvai?
Que lirismo nos toca a poesia?
Horas vagas
máximas
translúcidas...
Cochicha-se o grito na hora do amor.
O verso escancara-se solto.
Perde a razão:
metafisiologia
metagonia
silêncio que se quebra
sussurros
espasmo
paixão...

Mas, retorno à palavra:
imperiosa razão
cristalina tensão!

A vontade da palavra
abre um flanco em mim
- corte quase físico -
a mostrar minhas veias
abertas e azuis
e um rosto que expressa
uma estonteante
e mentirosa serenidade...
Qual!
Onde estão as palavras que procuro?
Tão grandes em mim
tão grandes e distantes...
Perplexas
diante do tamanho
do meu pensamento
e da minha incapacidade de expressão
em código palpável.
Onde está o mistério que paira?
Todas as incógnitas indecifráveis
a neutralidade do duelo
entre Deus e o Diabo?
- Para inexistir o bem e o mal -

Arre!
Por que mudar o tema
e a razão do poema
quando a palavra
foi apenas provocação?

Ah! Criva-se, então
nesta luta de escrevinhar
sobre o limbo das coisas
o artifício do poeta.
Pois o poeta tem nas pontas dos dedos
uma palavra mágica
uma literatura de afiada transcendência
uma geometria de linhas traçadas
uma lógica matemática
uma obviedade histórica.
Ilimitados poderes
que percorrem acidentes geográficos
ultrapassa leis físicas
e restabelece a alquimia dos dizeres.
O poeta que alteia e lima e tece a poesia
e capta simbologias
e bate asas feito o condor
e experimenta vanguardas...
Este poeta é o mesmo
seja em épocas remotas
seja em dias de hoje
seja em horas diurnas
seja em horas noturnas
seja num tempo tardio...





Genny Xavier.
Itabuna-Ba.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

VONTADES.

Se está tudo pesado, medido e dividido, quero a minha parte do inferno. Embriagar-me com o fel que me foi reservado. Mas não essa amargura mesquinha que é comum a todos. Quero a totalidade da dor do espírito. Trevas totais onde nem uma nesga de luz seja esperança. Qualquer som banido a uma distancia infinita e a paz da surdez total seja um bloco a me pressionar os miolos, longa e ininterruptamente. A lepra a me comer os dedos pra não tatear em busca de um inferno mais brando. Quero os crimes que deixei de cometer por covardia. A atrocidade daqueles amores abortados por medo. A vileza e o escárnio dos outros, descartados por não servirem mais ao egoísmo da vaidade. Estar acorrentado a pedra, com o menosprezo que tive pelo amor do outro a me bicar eternamente a mente insana. A futilidade dos desejos vãos nunca saciados na busca daquilo que se deixou pra trás. A maldade concreta dos meus atos contradizendo a mansidão do meu discurso, e possesso rir disso, atrás das mil máscaras que escolho. E assim torpe, pensar enganar a mim, e escarnecer dessa consciência inútil que me julga, até torná-la tão mínima que seja indiferente existir ou não. Não a morte, que com sua mão de ausência tudo apaga, mas quero a dor infinita e insuportável de não saber mais o que sou nem o que faço, e que virá por fim como uma paz a me redimir pelo quis e não fiz. Quero me mexer, ir e vir, e estar morto como você. Assim vou e vais me entender. - (Dário B.).

sexta-feira, 23 de março de 2007

MIAU.

Andas nua pela casa,
não para me provocar,
mas pra te fundires com o ar que é teu elemento.
Por ele me chegas,
felina criatura de suaves garras,
e insuflas desejos indiziveis na linguagem dos Homens.
Teus passos lentos, lentos, lentos...
os movimentos leves, leves, leves...
dão o compasso do infinito prazer que nos tornou um.
Aspiro-te e sou. - (Dário B.).

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

REFÚGIO

Acode-me, Arte da Poesia,
tu que sabes todos os remédios.
Por que dela o riso, já não mais cai sobre mim,
a suavizar as marcas da face,
e as cicatrizes do corpo?
Por que a prata do seu olhar,
não mais fulge cores no meu ver?
Que é da nuvem de cabelos,
a agasalhar meu frio infinito?
Onde tocam as suaves mãos,
mães de magias sem fim?
Como de novo acompanhar,
a febril dança dos seus pés?
Quando outra vez repousar,
no indizível leito do seu corpo?
Faz chegar os teus remédios, Arte da Poesia,
ainda que só por um instante.
Ameniza a dor deste punhal,
com a Fantasia e a Palavra. - (Dário B.).
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