O poeta mais velho que mora em mim diz: - Nunca escreva versos de Amor. Nada do que se diga sobre ele, jamais será suficiente. Mas continuo teimando, e quem quiser que me condene.
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro.
Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido.
Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.
Zé.
(Não poderia me furtar a postar esta preciosidade. Uma carta do escritor José Saramago endereçada a sua avozinha. Quem dera corresponder-me com uma pessoa de tal quilate. Um beijo e um muito obrigado á Ally, que me fez chegar as mãos tal maravilha.)
Quem é você que está em mim, e me faz tão criança assim? Faz de mim a tua presa, põe carinho sobre a mesa e no meio da incerteza não sei se sou almoço ou sobremesa. Justo eu, bom individuo, da moral um lumiar, das virtudes um assíduo, cidadão quase exemplar. Pra que me quer assim cativo, seguidor apostolar, sujeito subjuntivo, incapaz de cintilar? Vá lá, um ou outro enguiço, pois ninguém é assim perfeito, se por vezes molho o beiço, se pareço ser cobiço, se em casa eu engrosso, isso é conta de defeito? Mais vale o meu desvelo, carinho sem esperar, flores, sonho de valsa, qualquer alegria avulsa, quando o coração pulsa, teimando em se alegrar. Não vamos ao padre nem a Vossa Excelência, desnecessária discrepância, seria redundância, frente à tamanha abundancia do nosso amor. Dispenso padre ou doutor, juiz ou monsenhor, não precisa testemunha, muito menos gatafunha, pena, carimbo ou relator. Troco tudo por acordo mais profundo, de nós mesmos oriundo, incomparável ritual, fator consensual e selo sem igual. Depressa que me aflijo, vem pra cá e me sufoca, prometo que me corrijo, cala de vez a minha boca, em regozijo, com um beijo. – (Dário B.).
Há que ser no escuro. Mas não escuridão de trevas, que lembra quando fechas os olhos e deixas de iluminar tudo a sua volta. Há que ser naquela semi escuridão onde mais se adivinha que vê, e faz crescer o anseio. Um macio escuro que não assusta, mas aconchega e só faz aumentar curiosidade e volúpia, brando crepúsculo de pejos e resistências. Há que ser assim, numa suave penumbra onde se confundam a mansidão e a ousadia, na confusão das mãos que buscam no corpo do outro aquilo que já lhe pertence, desvairada e delirante procura. Há que ser a luz branca e leve de uma vela, muda testemunha que, invejosa estremece, tão pequeno o seu calor. Há que ser assim a entrega e a posse. Há que ser assim... – (Dário B.).