Os poemas, já estavam prontos? Escritos por quem? Talvez sejam uma goteira do céu apenas, no quarto vazio que conta a partida, chuva da rua cinza e casas baixas, ao vento papéis velhos, tremulas arvores, sons de passos medrosos que ando em busca de outra rua, mais clara, de claros olhos sem pudor onde a treva cesse. Uma boca de murmúrios, rosto pálido, mágicas mãos, frias agora, onde busco a ausência do sofrimento, um vago beijo de carinho. É a mesma, sempre nova, calada, crendo em mim. Caminho até um depois de amanhã que nunca chega. No quarto, a goteira... - (Dário B.).
domingo, 10 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
ACONTECE.
ACONTECE. // Eu não posso. Não devo fazer. Mas acontece. De novo o exílio no teu corpo, na tua voz que me sossega a alma, o desejo ardendo em fogo brando, no teu cheiro que invento. A tua boca numa incandescencia rubra, o teu corpo transbordando em veneno. Eu não posso. Não devo. Mas a ação é diferente de quem a pratica. Bebo-me, no suor que pinga do lábio, devoro-me na fome do corpo, a alma pula como um feto febril, estanco o sangue vertido com minha sombra, e acontece. - (Dário B.).
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
DEUSES.
Não escrevo com tinta. É antes bílis amarelo-negra de incompreensão, de tumulto intimo. Que busca o eco da força dos perfumes, das casas onde vagam as paixões, as roupas de outro tempo, as luzes, jóias, floreios de danças. Das camas onde repousei meu corpo. Ainda que derrube os ídolos e destrua os templos, não matarei os deuses. Que, dissolutos, iam enredando a trama da minha poesia, depurando o pouco verbo entre o crer e o descrer. Porque assim quis o destino, e sobre minha fragilidade moldou um poeta de sentimentos nobres e vãs palavras. Abala-se a fé mas os deuses não morrem, e isso há de excepcional, pois que seguem destilando a palavra, cálido afeto. E a verdade, a vida, a imortalidade e o arrependimento, que de resto não dura mais que um dia ou dois. - (Dário B.).
terça-feira, 30 de outubro de 2007
SE EU FOSSE DEUS REFORMARIA.
O cinza do céu,
o adeus, a vingança,
a enfermidade, o mal,
o olho triste da criança.
O ódio medonho,
a ausência, a cama de chão duro,
a velhice, a dor,
os limites para o amor.
As sombras, o imponderável,
o onírico impalpalpável,
o súbito, o impossível,
o som inexprimível.
Se eu fosse Deus reformaria,
a criação, os mandamentos, todos dez,
só tu permanecerias,
exatamente como és. - (Dário B.)
o adeus, a vingança,
a enfermidade, o mal,
o olho triste da criança.
O ódio medonho,
a ausência, a cama de chão duro,
a velhice, a dor,
os limites para o amor.
As sombras, o imponderável,
o onírico impalpalpável,
o súbito, o impossível,
o som inexprimível.
Se eu fosse Deus reformaria,
a criação, os mandamentos, todos dez,
só tu permanecerias,
exatamente como és. - (Dário B.)
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
TROCA.
Repete de novo meu nome, com a chama que tens na garganta,
e nesse caos de formas, cores, sensações e possibilidades,
dá-me de novo os beijos que colocavam estrelas no céu da minha boca.
Traz a palma que dá sombra ao nosso encontro.
Mostra-me os olhos da cor da madeira adulta,
as mãos tão sem anéis que semeiam magias plenas pelo ar.
Dá-me teu ventre por leito eterno num momento rubro de torpor.
E eu te dou o rio que corre pra ti, e arrasta espinho e pedra e dor. -
(Dário B.).
e nesse caos de formas, cores, sensações e possibilidades,
dá-me de novo os beijos que colocavam estrelas no céu da minha boca.
Traz a palma que dá sombra ao nosso encontro.
Mostra-me os olhos da cor da madeira adulta,
as mãos tão sem anéis que semeiam magias plenas pelo ar.
Dá-me teu ventre por leito eterno num momento rubro de torpor.
E eu te dou o rio que corre pra ti, e arrasta espinho e pedra e dor. -
(Dário B.).
VIVER.
Já estar aqui quando o Tempo não havia, e ser o homem que matou a morte. Não precisar nunca sacudir os ossos e o ócio. Nem carregar nas costas o peso de não saber ao menos 3 mil volumes e ter a tranqüilidade do livro ainda na barriga da árvore. Ignorar o canto do galo renitente que insiste em viver em meio aos prédios. Devorar a fome para torná-la inútil. Esquecer que só há uma jogada, contra os naipes marcados da morte. Acordar sempre de madrugada e chegar atrasado para tudo. Habitar a cidade dos ventos, ponto sem a essência da dor. O calmo mundo de antes, sem volta nem ida, com apenas uma porta de saída. Viver sem o medo de ter um medo maior pré-original. Clandestino, secreto, espontâneo, ter o poder de um pequeno deus. Viver enfim. – (Dário B.).
POETA.
Poeta, demônio de chifres de luz e cascos de vento. Abre no meio da rua suas asas, e entre o céu e o inferno, é eterno. Mede seu tempo no relógio dentro do peito, coração sem ponteiros, a medir a falida subtração da vida. Caminha os caminhos do próprio corpo que é medida do que está sempre adiante, perdido em terra distante. Atravessa a vida de sinais fechados, e traz na boca o sangue morno de violar corações e cadeados. Buscador eterno dos sonhos, se não é completo é feliz, não sendo mil folhas, é raiz. Traz musa, segredo, alvo e punhais, submisso a mão implícita das palavras ancestrais. Por desconhecer a vingança, da-se por herança, apenas a vasta espera da esperança. – (Dário B.).
terça-feira, 10 de julho de 2007
AZUL.
Acho chato usar lugar-comum, dizer que vida é feita de encontros e desencontros. Prefiro os reencontros, como aconteceu entre eu e a Genny depois de alguns outonos. Claro que eu lucrei muito mais com isso, ela me deixou postar dois poemas (só dois), mas a vontade é encher o blog com tudo de lindo que ela escreve. Obrigado Genny, não some de novo, tá?
O AMOR.
Do amor, só se tem dizeres:
Amor, vigor, tremor...
encanto, deslumbramento posto
entre o muro e o abismo.
Do amor, só se tem temores:
Amar, sofrer, ferir...
encontro, desencontro breve
que paira na finita razão do tempo.
Do amor, sejamos sinceros!
esperamos a redenção,
lembrança de um pecado original
que ainda não superamos.
Do amor, desejamos:
a flor e a náusea,
porque quase nada
entendemos dele.
Genny Xavier
Itabuna-Bahia
Amor, vigor, tremor...
encanto, deslumbramento posto
entre o muro e o abismo.
Do amor, só se tem temores:
Amar, sofrer, ferir...
encontro, desencontro breve
que paira na finita razão do tempo.
Do amor, sejamos sinceros!
esperamos a redenção,
lembrança de um pecado original
que ainda não superamos.
Do amor, desejamos:
a flor e a náusea,
porque quase nada
entendemos dele.
Genny Xavier
Itabuna-Bahia
Assinar:
Postagens (Atom)